13 de agosto de 2007

virgens


autor desconhecido

para a Alice


Sigo lentamente com o papel virgem sem me levar a parte alguma, apenas desencontros em esquinas incertas. E tu, do outro lado, rejeitando amores medíocres, tentativas de aproximação insonsas. Ambos sabemos o quanto a virgindade do papel nos seduz: salivamos como cães de pavlov, irrequietos até que a tinta, tal qual falo profanador, sacuda com nódoas, palavras e riscos toda essa pureza inocente dos papéis.

Dizem-nos, alarves, para que ergamos as palavras num grito.

Não compreendem: o nosso cio permanecerá enquanto soubermos que os papéis virgens vingarão. E perante isso não podemos urdir o grito, lamentando o quanto a voz se indigna, impotente.

Não que isso seja sinal de fraco abandono, de preguiçoso desleixo. Apenas a ambição assombrada pelos fantasmas ignaros do fracasso.

Eu e tu sabemos: o nosso grito que reclamam cairá no mundo quando todas as palavras souberem seduzir, em espaço e tempo adequados, todos os corpos virgens que anseiam ser escritos. Até que isso aconteça, são preliminares, ou, em último caso, orgasmos estéreis de masturbações experimentais.

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