19 de agosto de 2007

cinco minutos


autor desconhecido

Give me please five minutes of everything
The Gift, Film



Concede-me a voz entre os dedos mortos. Deambulando sozinho de sombra em sombra, a pedir a portas estranhas a esmola de um rosto que me ampare a solidão de te perder. Caiu a noite sem aviso de luto sem reverso, tão negro que me parece não haver jamais novas auroras, reciclagens, ranhuras de terra onde possam ainda corações florir.

Foste o último jardim entre os meus gestos. Quedam-se as coisas tão vulneráveis junto aos nós dos teus dedos, ensarilhados uns nos outros sem entendimento. As camélias e os lírios tropeçam em orações com os círios carpindo as despedidas imprevistas. Sussurram os rostos das pessoas cumprimentando-se dolorosamente, sob a luz dos candelabros mais altos numa grosseira atitude de indiferença quando lhes equaciono se na verdade partes, se voltas ressuscitando, se tudo não será um sonho descabido, se afinal tudo isto não é.

A terra engolir-te-á, amanhã, depois. E eu sem fôlego para gritar vou deixar-te ir sem te mostrar o quanto os dias foram raros. Restará uma efemeridade nunca prevista, nunca contada. Como se no fundo não tivesse havido nada, com isto do tempo encalhando e desencalhando. Concede-me a voz final entre os dedos mortos. Cinco minutos de tudo para te reviver, e guardar.

Depois partes então, se assim o mundo quer, se assim se fez o mundo. Os meus dedos recolherão, inconsolados, junto às memórias.
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