15 de fevereiro de 2007

quando te escrevo


Decepção, de Armindo Dias em 1000 imagens


Quando me sento a escrever-te são sempre pensamentos abstractos, e as letras vão desenhando curvas e rectas na folha limpa do papel, até que surge uma ou outra palavra ainda sem qualquer significado mas cuja função é puxar as que se vão seguindo, e aí tens uma oração, uma frase, um parágrafo a estender-se até às margens do papel sempre com os pensamentos abstractos, uma fotografia, outros papeis amarrotados, uma lapiseira, o cinzeiro sujo e negro e a minha boca

(tossindo e não são palavras a tosse, apenas ruído)

mascando os desinteresses do corpo, na janela sombras de miúdos com um cão, gesticulando ruídos estridentes e gargalhadas, e a minha boca

(tossindo e não são gargalhadas a tosse, apenas ruído)

esboçando um esgar de arrependim

(não um esgar, um bocejo largo)

esboçando um bocejo largo de arrependimento devido aos pensamentos abstractos, os olhos miram as letras desenhadas encastelando frases e parágrafos que tentam entender com um milhão de lágrimas à entrada. Aconchego-me na cadeira isolando as mãos num vácuo, e tudo são objectos

(mascando desinteresses do espaço)

com a música a crescer até que a boca deixa de tossir porque o cinzeiro limpo, o papel amarrotado entregue à lixeira dos restantes. É quando apago a luz e fico sozinho sem sombras nem janelas escutando a música emergindo no meu sono que te escrevo verdadeiramente.
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