4 de maio de 2006

da tua iniciativa


Anjo, de Miguel Oliveira em 1000 imagens


Sentas-te e as palavras não estão contigo. Abres os dedos afagando o regaço e a tua mão tropeça num soluço inaudível. E servir-te-ia chorar para esquecer, para afogares as mágoas em auto-comiseração. Eu aguardo no mesmo silêncio feito de culpas e sustenho a voz para não te atrapalhar a equação dos pensamentos. Sempre foste tu que decidiste o que fazer. Quero pois que sejas tu a tomar a iniciativa, como se nos encontrássemos numa encruzilhada sem direcções, e me guies, como sempre o fizeste, pelo caminho que achas o melhor para concretizarmos o nosso destino. No teu corpo sinto que reside uma impaciência, parece-me que te vais mover, mas nem o olhar manifesta qualquer intenção de movimento. Eu sigo silenciosamente, remexendo devagar as minhas algibeiras, levantando e poisando os livros em cuidado, receando que a movimentação do ar te altere o alinhamento da solução para tudo isto.

Foram longos minutos, porque não fui capaz de saber se horas; sei que estamos nisto há muito tempo, desde que te sentaste. Agora que a minha boca, rendida ao cansaço, se solta em um ou dois bocejos, e depois de tanta paciência, esperando que da tua condição de estátua surgisse o epílogo da nossa presença diante do outro, as tuas mãos erguem-se seguindo a explosão indignada da tua boca que me acusa de não fazer qualquer esforço para superar esta ridícula situação.
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