22 de abril de 2006

espaços


despede-te de mim quando partires, de Armindo Dias em 1000 imagens


Fico a madrugar os espaços entre as lentas folhas de papel impressas, numa melancolia abstracta. Recordo o teu rosto com o olhar bebendo as palavras num acto de fé, como se esperasses descobrir uma relíquia. Não era a mim que lias, mas a ti que procuravas nas sombras das palavras. Qualquer entrelinha descuidada, como os lábios descaídos sob o tom do teu nome, sussurrado a meio de uma confissão patética de amores exacerbados. E depois um nada multiplicando uma distância inventada, dois acenos breves de acalentada esperança, a noite de surpresa caindo como um fardo sobre a insonte partida. Nenhum de nós se voltou a procurar gestos ainda mais vagos, foi tudo muito simples, diria perfeitamente natural.

Não sei reconstituir o que houve entre a tua procura neste amontoado de papel impresso com palavras que já se recusam a reconhecer-me, e a estação de metro onde nos despedimos. Recordo o teu rosto – sempre sereno –, a avidez do olhar seguindo o traçado da escrita, depois tão só essa distância que nos separou em parte incerta. E porque assim entendo, são os espaços que contarão agora o silêncio daquilo que não quero recordar ou, simplesmente – como qualquer entrelinha descuidada –, o que já não quero dizer, como quem investe a sua sobrevivência após uma derrocada.
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