29 de março de 2006

poeta alado (um ano após a partida de JAG)



ao poeta José António Gonçalves (1954-2005)

Continua chovendo.

Que dirias tu da água que verte passado um ano depois de voares? Nos teus dedos também nasciam horizontes, como diria Eugénio, tinhas nas mãos essa vocação de jazigo, de fonte, de coral. Qualquer dom de partitura nas palavras alinhadas, cada uma seguindo o teu ritmo de poeta alado, rompendo o mundo das convenções, alargando as longitudes do olhar, quebrando imposições. E eras tão volúvel na ternura e nos afectos, grego e troiano dos sentimentos, das relações que querias simples. De tudo fizeste um poema, e mesmo voando para lá do nosso entendendimento terreno, era do verso derradeiro que teceste à vida com as cores de todos os crepúsculos que nos deste a beber para nos embriagarmos de música e humanidade. Que dirias tu hoje da água? Que dirias tu hoje das chuvas, e dos prados amadurecendo? Que dirias tu a nós, poeta alado - recitar-nos-ias a tua ode ao deus enfim encontrado?...

Aqui continua chovendo.

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