27 de dezembro de 2005

milímetro


O Canto dos Anjos, por Armando Dias em 1000 imagens


É difícil escolher-te agora as palavras. Dizer-te gosto de ti seria tão banal como indicar-te que tens uma nódoa na camisola. Ou uma unha quebrada. Ou uma pestana morta sobre o teu rosto. Tudo tem passado incólume à exactidão dos sentimentos: vejo-te, toco-te, ouço-te e nada me parece ter qualquer significado. Nem mesmo o teu olhar apontando lá fora a chuva que cai aos poucos, numa preguiça diagonal. Nem mesmo a tua mão que surge de surpresa como quem vem à socapa resgatar uma carícia. Sabes, se o mundo pudesse ser um milímetro que fosse mais além ou mais aquém, talvez as palavras tivessem já desencadeado a força necessária para o amor, mas no mundo nada se mexe – nem para cá nem para lá. E parece-me que, a ser assim, poderás ter sempre uma nódoa na camisola para limpar, uma unha para limar, uma pestana que exija a paciência minuciosa para a remover sem que te magoe o rosto. Mas gostar de ti, e dizê-lo, seria tão improvável quanto entrasses agora pela porta e afirmasses, com uma certeza de eternidade, que afinal gostarmos um do outro sempre fez parte do mundo tal qual ele é, sem milímetros a mais ou a menos.
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