19 de outubro de 2005

pudor




Fui buscar aos teus lábios a chuva que se firmava, numa consciência pudica, na ombreira do teu sorriso. Eu vi como as folhas do Outono se portavam, e quis também agarrá-las para te oferecer em ramalhete os encantos da nova estação. Subia morna a temperatura entre as gotas que caíam sobre a tua face, aconchegando-se pudicamente, como disse, no regaço do teu sorriso. A água traz consigo uma pureza incontestável, e por isso talvez seja elemento constante do beijo. E então, confuso e enternecido, não soube distinguir a água que escorria do teu olhar. Podia ser tudo: afinal, algures dito num poema que me dediquei, o mundo precipita-se da condensação dessa nuvem gigante que são os sentimentos.

O beijo era uma estratégia benigna para afectar as nossas vidas desde aí. E quando colhi dos teus lábios a chuva que se firmava, num pudor consciente, sobre a carne do teu sorriso, percebi que, mesmo que num toque de pedra, a sede tange os dedos e por isso toda a inteireza das minhas mãos inundaram-te o corpo, em vão preocupado com a frieza da água caída.
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