29 de setembro de 2005

verdade


autor desconhcido


Se pudesses estar agora aqui comigo, esquecendo as consequências, devolveria o espaço e o tempo à abreviatura das gotas da chuva e da respiração suave da tarde cinzenta. Queria apenas tocar-te, maculado pelas improbabilidades e impossibilidades que a vida me impõe. Correria esse risco para ter um afecto teu. Velando as tuas mãos como único tesouro do mundo.

Perceberia a cor dos teus lábios sangrando desejos proibidos. Esta coisa do outono rompe-me o espírito, desarma-me aflito e menino, como se órfão de ternura. Imagino a tua voz quebrada na terra, de musgo e folhas cadentes que afugentam os resquícios do verão. Uma tristeza bela, quase divina.

E procuraria pelo teu hálito frutado, de ameixa seca ou uvas novas. Engoliria a maciez da tua língua, saciando-me na tua saliva, seiva última do milho envelhecido, esperando mãos virgens para a desfolhada.

- Diz-me que me amas.
- Não sei dizer-te isso.
- Porquê?
- Tenho medo.

As lágrimas contra a janela, a madeira humedecendo.

- Dá-me as tuas mãos.
- Perdoa-me se te magoo.
- As tuas mãos não me magoam.

Não sei exactamente o que isto quer dizer. Não quero dividir-me, não quero partir nem ficar. Ficam-me embargadas as palavras num sufoco de ternura, os pátios espelham pocinhas onde o olhar se estende no mesmo sonho, eu para aqui parvo a dizer-te coisas como estas, sem conseguir manter a voz, sem saber afugentar os soluços. E tudo o que digo, porém, tem tanto de verdade que pesa de tal maneira que parece tudo ferver derramando irreversivelmente sentimentos que eu não sei dizer, catalogar, explicar.

- Diz-me que me amas.
- Tenho medo!
- Não temas, abre-me a porta.
- Qual porta?
- Aqui.

E os dedos, e a língua, e o corpo dentro. O toque, um afecto, o beijo aproximando tempestivos arrependimentos, afugentando em debanda chilreios de pardais que vieram molhados à procura do mais escasso alimento.

Se pudesses estar agora aqui comigo, esta canção talvez fizesse sentido para ambos, sem que isso signifique realmente alguma coisa. A cadência a estontear-nos, a perdemos a cabeça, bulharmos, não quero, não quero, não quero, condenados pelos beijos sôfregos, pelos movimentos bruscos da roupa, o frenesim histérico dos corpos pecando. E a canção avançando, repetindo a fórmula, magoando-nos ambos com a verdade. A voz trocando o nosso silêncio e chorando o que não entendemos e não queremos acreditar.

Não te queria longe, a sério que não. Diz-me que me amas.
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