25 de agosto de 2005

o inferno nas têmporas



Thank you, O Lord
For the white blind light
A city rises from the sea
I had a splitting headache
from which the future is made.


James Douglas Morrison


Tenho tanto por ler e o país arde num crepúsculo seguido de romas repetidas. Dói-me a cabeça para entender o que me dizem os livros e os meus olhos embaciam com tanto fumo. Erguem-se os esqueletos das árvores, das casas, e lateja-me nas têmporas a aflição de quem sente sem o apelo da morte o inferno a dominar-lhes para todo o sempre a memória em vida. A televisão vomita-se agoniada entre o futebol e o mundo explodindo aqui e ali. A velha senhora lembra o tom profético de quando ouvia dizer em nova que um dia se veriam coisas que nunca se imaginaria chegar a ver-se, e quando olho para trás sinto sobre mim o indicador apontado no ar, severamente, do velho das botas caído da cadeira. Tudo isto é um pesadelo, penso, só tenho sono. A tarde já morreu para os lados do rio onde as crianças vão passear os patins, os triciclos e as bicicletas. Há um jardim perto, colorido de flores e relva proibida de pisar. Se o fogo consome o paraíso dos que guardam entre as mãos a fé e as palpitações do medo e do desespero, aqui o rio é uma ironia onde os sorrisos parecem surreais, como se não estivessem todos no mesmo país, no mesmo planeta, como se a realidade fosse a milhares de anos-luz. Só assim se compreenderá tantos sorrisos à beira água de um rio que não arde como o mar de chamas sobre as serras, sobre as aldeias, na minha dor de cabeça…Talvez seja um cobarde, por virar agora as costas e querer dormir, querer que o latejar das têmporas simplesmente desapareça, sem ouvir e ver a mais nada. É ambição minha juntar um sorriso meu aos restantes. Sou um reles humano entre os demais.
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