26 de junho de 2005

do colo da memória


por Manuel Antão em 1000 imagens

Cada momento de dor é um prenúncio de morte, assim como o lento gotejar de uma nuvem anuncia a monção. As pombas partiram daquela praça, isolando-me numa solidão de ruídos, em que cada aresta da calçada segue o rasto do meu passado. Todas as expectativas logradas, ao virar da esquina do tempo. Os sítios envelhecem para ceder lugar a novas gruas. Entardece, e no meu rosto vai nascendo uma sombra presa a uma fotografia que a memória, despertada por lágrimas, capta e imprime do espelho.

E num pensamento cai a noite. Todos os sons se calam respeitando o silêncio pardo e húmido da solidão. Tenho as mãos em sobressalto. Lentamente afago o meu corpo para a terra que equilibra os sentidos desentendidos. E a tua mão é um pássaro noctívago, que voa lacrimejando orvalhos sobre o colo da minha memória.

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