6 de maio de 2005

viagens solitárias




Bebe o café! Deste tantas voltas com a colher sobre o mínimo negro do líquido caramelizado pelos dois pacotinhos de açúcar, que me ausentei, procurando viagens impossíveis em um outro lugar que não este pulverizado de cigarros, tilintar de chávenas e copos, burburinhos de conversas animadas. Parecemos dois figurantes de um filme. Enquanto mexias numa atitude eterna o teu café entraram e saíram pessoas tão diferentes, e fico a pensar o que será a vida desta gente. Quantas moverão assim a colher sobre o café, desprendidas de tudo o que as rodeia? Digo-me abstracto mas quem se abstrai és tu que nem sequer deste conta do meu apelo. Não viajas no mesmo comprimento de onda que eu, tomas caminhos que desconheço, finges tudo e finges-te de tudo. Paralelamente absorta no movimento alheio. Onde estás, que me não encontras? Bebe o café! Deste tantas voltas com a colher sobre o mínimo líquido negro da chávena que, ao regressares, exclamas ridícula, O café está frio, merda! E eu peço-te uma paz, uma trégua: vamos embora?
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