3 de maio de 2005

fotografia




Se eu tirasse uma fotografia daqui e agora, eram duas cordas que dançavam ao vento agreste, dois cabos de aço completamente abstractos na paisagem. Gruas ao longe: as gruas fazem a vez das arcaicas antenas (agora que dão lugar a velocidades subterrâneas), farejando no alto ar a expansão do betão. Daqui os feros animais que rodam sobre suas negras patas de borracha parecem mais pequenos, e passam com tal anonimato e indiferentes ao meu olhar que me desespera. Por existir um mundo que ignora a minha observadora presença, ainda que a janela pequena e insignificante. Há vento, o que não se veria na imagem retida, excepto pelo gesticular dos braços ofegantes das árvores em pânico (as árvores assim inspiram novos-gritos-de-munch). Se eu tirasse uma fotografia daqui e agora, era um silêncio de gestos que o mundo jamais poderá conhecer.
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