4 de maio de 2005

breve abordagem escatológica

- Puta que pariu o filho da puta do telemóvel, foda-se!

Ouvi o vociferar pleonástico da mulher enraivecida com a perda de tecnologia enquanto o chão ardia de uma chama invisível.

Senti o meu corpo encharcado, conspurcado, e ausente. Pelo olhar soube distinguir a lixeira mais adiante, e três pessoas manejando como enfermeiros braços e agulhas.
À minha frente erguia-se, com boa acentuação, uma escadaria de escombros. Sabia que o caminho ainda seria mais doloroso.

Eis então que, se não tivesse olhado para trás e revisto a rua limpa, e a mulher rompendo o alcatrão com o automóvel enfurecido, não me teria apercebido que as várias dimensões (temporais? intelectuais?) por vezes se cruzam. Porque o acaso é um cavalo da cor do vento. (*)


(*) Manuel Alegre

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